“Doutora, pede todos os exames que puder no meu check up! Quero fazer todos os hormônios e vitaminas!”

É comum ouvir esse tipo de pedido durante as consultas. Porém, sempre costumo orientar meus pacientes de que, na maioria das vezes, menos é mais. Nem todos os exames são necessários de forma rotineira, e a escolha de quais exames realizar deve ser baseada em evidências científicas, ajustadas às necessidades de cada paciente.
As organizações de especialidades médicas e comitês de saúde nacionais e internacionais fundamentam suas recomendações em pesquisas científicas e revisões da literatura médica, a fim de determinar quais exames são apropriados para rastreamento e prevenção, além de quando e para quem devem ser indicados.
Essas diretrizes variam de acordo com o risco individual do paciente para o desenvolvimento de doenças, considerando fatores como idade, histórico familiar e exposição a fatores de risco específicos.
Vamos aos exemplos?
Exemplos de Exames de Rotina
- Hipertensão: A partir dos 18 anos, todos os adultos devem realizar o rastreamento da hipertensão. As medições são feitas em consultório médico, com frequência que pode variar entre 1, 3 ou 5 anos, dependendo dos fatores de risco do paciente. Na prática oriento consultas anuais para reavaliação.
- Diabetes: Pacientes com sobrepeso ou obesidade devem realizar o rastreamento de diabetes a partir dos 35 anos, ou antes, caso haja histórico familiar ou pessoal de risco elevado para a doença.
- Câncer de Tireoide: Para adultos sem sintomas (como roiquidão, presença de nódulo, aumento do volume da glândula, entre outros) ou fatores de risco conhecidos (como história prévia de radioterapia cervical), não há indicação para rastreamento de câncer de tireoide.
- Prevenção de Câncer do Colo do Útero: Mulheres devem iniciar a realização de exames preventivos do colo do útero entre 21 a 25 anos, com continuidade até 65 anos, seguindo as orientações das entidades de saúde. No Brasil o Ministério da Saúde sugere começo das coletas aos 25 anos.
- Vitaminas e Minerais: Para a população geral, não há recomendação para realizar exames rotineiros para medir níveis de vitaminas (como B1, B2, B12, A, C, D, E e K), zinco, selênio, ou homocisteína, a menos que haja suspeita de deficiência ou fatores de risco específicos para determinada condição.
- Hormônios: Exames hormonais, como os de testosterona ou outros hormônios, devem ser realizados apenas quando houver sintomas ou suspeitas de doenças hormonais. Não existe respaldo científico para a solicitação desses exames de forma indiscriminada ou para todos os pacientes.
A importância da consulta de rotina
A consulta médica de rotina é o momento ideal para discutir quais exames são necessários para cada paciente. A decisão sobre quais exames solicitar deve ser tomada de forma individualizada, baseada nas necessidades e características do paciente.
Essa abordagem é chamada de decisão compartilhada, onde os riscos e benefícios dos exames de investigação são discutidos com o paciente. É importante frisar que exames realizados sem queixas específicas ou fatores de risco conhecidos podem não trazer benefícios e, em alguns casos, podem até causar mais prejuízos do que vantagens.
É na consulta de rotina que definimos quais são os exames indicados e essa decisão é feita caso a caso e sempre dividindo as decisões com os meus pacientes.
Exames Preventivos: Rastreio e Screening
Existem também os chamados exames de rastreamento ou screening, que são realizados de forma rotineira, com intervalos predefinidos pelas entidades de saúde. Esses exames são recomendados como prevenção primária, para detectar doenças em estágios iniciais, antes que apresentem sintomas, e incluem exames como o Papanicolau (para o câncer do colo do útero), mamografia (para o câncer de mama), colonoscopia, entre outros.
Quando Há Suspeita de Doença
A situação muda completamente quando existe uma suspeita clínica de doença. Nesses casos, a solicitação de exames se torna essencial para diagnóstico preciso e planejamento de tratamento.
Cada exame será escolhido com base nas características e sintomas específicos do paciente, sempre com foco na investigação direcionada à suspeita clínica.
Conclusão
Em resumo, o check-up ideal não é aquele que envolve uma grande quantidade de exames indiscriminados, mas sim aquele que é realizado de forma estratégica, com base em evidências científicas e nas necessidades individuais do paciente. Isso garante que os exames solicitados sejam realmente necessários e úteis para a saúde do paciente, promovendo uma abordagem de prevenção inteligente.
Referências:
1. United States Preventive Task Force; 2024. Disponível em: https://www.uspreventiveservicestaskforce.org/uspstf/
2. Overview of water-soluble vitamins.Waltham (MA): UpToDate; 2024.
3. Kesari A, Noel JY. Nutritional Assessment. [Updated 2023 Apr 10]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK580496/